O comportamento alimentar dos brasileiros vem passando por uma transformação silenciosa, mas consistente. Pesquisas recentes indicam que cada vez mais pessoas estão reduzindo ou eliminando o consumo de produtos de origem animal, seja por razões de saúde, éticas ou ambientais. Esse movimento, que já foi visto como restrito a pequenos grupos, hoje aparece com números que chamam a atenção de pesquisadores, empresas e formuladores de políticas públicas. Entender esse fenômeno ajuda a explicar por que restaurantes, supermercados e até grandes indústrias alimentícias vêm ampliando suas opções sem carne, leite ou ovos.
Uma pesquisa do Datafolha encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) e divulgada neste ano aponta que 7% dos brasileiros concorda totalmente ou em parte com a afirmação de que é vegano. O levantamento, feito com uma amostra representativa da população, também mostrou que uma parcela relevante dos entrevistados já tentou reduzir o consumo de carne em algum momento da vida, o que sugere que a transição alimentar é mais gradual do que uma escolha definitiva de um dia para o outro. GMC Online
O que os números revelam sobre o consumidor brasileiro
Outros levantamentos ajudam a compor esse retrato. Um estudo do IBOPE, citado em análises recentes sobre o setor, mostra que cerca de 14% da população brasileira já se declara vegetariana, o que representa um salto de 75% em relação a 2012. Esse crescimento não fica restrito à mudança de hábito individual: ele empurra junto um mercado inteiro, que vai do pequeno empreendedor de bairro até companhias multinacionais de alimentos. Odssantos
Um dos sinais mais claros dessa mudança está no interesse online pelo tema. De acordo com o mesmo levantamento, as buscas pela palavra vegano no Google aumentaram 300% entre 2016 e 2021, e a curva segue em alta. Esse dado é importante porque mostra que a curiosidade não vem apenas de quem já segue uma dieta vegetariana ou vegana, mas também de consumidores flexitarianos, que buscam reduzir o consumo de carne sem abandoná-lo por completo. Odssantos
O crescimento também aparece na oferta gastronômica. Hoje, o país é considerado a nação com maior variedade de estabelecimentos voltados ao público vegetariano e vegano na América Latina, com mais de 2.900 estabelecimentos voltados a esse público, concentrados principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Essas cidades se tornaram referência para quem viaja em busca de opções plant-based, com cardápios que vão do simples ao sofisticado. Odssantos
Mercado vegano se profissionaliza e ganha reconhecimento oficial
A expansão comercial acompanha esse movimento de consumo. Segundo dados do Ministério da Economia mencionados em análises recentes do setor, o número de empresas com o termo vegano no nome cresceu mais de 500% na última década. Esse dado reforça que o veganismo deixou de ser um nicho isolado e passou a ser tratado como estratégia de negócio por empresas de portes muito diferentes. Odssantos
Para dar mais credibilidade a esse mercado em expansão, a Sociedade Vegetariana Brasileira criou o Selo Vegano, uma certificação que atesta que produtos estão livres de ingredientes de origem animal, abrangendo alimentos, cosméticos, itens de higiene, limpeza e moda. A certificação funciona por produto, não pela marca inteira, o que dá ao consumidor mais segurança na hora de escolher itens específicos dentro do portfólio de uma empresa. Odssantos
Essa institucionalização também aparece em iniciativas de maior alcance popular. A campanha internacional Veganuary, por exemplo, tem sido realizada oficialmente em parceria com a SVB no Brasil, incentivando pessoas a experimentarem hábitos alimentares mais leves logo no início do ano. Segundo a organização, a proposta não é impor uma ruptura radical de hábitos, mas sim aproximar as pessoas de escolhas que já fazem sentido para elas, unindo saúde pessoal, bem-estar animal e cuidado ambiental.
O que esperar dos próximos anos
Diante desse cenário, é natural que o mercado de alimentos siga investindo em novas linhas plant-based, e que políticas públicas relacionadas à alimentação passem a considerar essa fatia crescente da população. Supermercados já ampliaram gôndolas dedicadas a produtos vegetais, e redes de restaurantes revisam cardápios para incluir opções sem carne como padrão, não mais como exceção.
Para quem está começando a se interessar pelo tema, especialistas costumam recomendar uma transição gradual, priorizando alimentos in natura como leguminosas, grãos e vegetais frescos antes de recorrer a produtos industrializados que imitam carne. Essa abordagem tende a ser mais sustentável financeiramente e mais fácil de manter no longo prazo, já que não depende de itens de preço mais elevado.
O crescimento do veganismo no Brasil não é um modismo passageiro, mas reflexo de uma mudança de valores que combina saúde, consciência ambiental e novas possibilidades de mercado. Os números mostram que o país caminha para consolidar essa tendência, e o interesse crescente por informação sobre o tema indica que o debate sobre alimentação sem produtos de origem animal deve continuar ganhando espaço nos próximos anos, tanto nas casas dos brasileiros quanto nas prateleiras dos mercados.





