
O tratamento dos rejeitos, a fração de resíduos sem possibilidade de reciclagem ou compostagem, representa a fronteira tecnológica mais desafiadora da gestão de resíduos, e Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, acompanha de perto o surgimento de alternativas que prometem reduzir a dependência histórica dos aterros sanitários. Durante décadas, o aterramento foi tratado como destino inevitável dos rejeitos, mas a combinação de pressão regulatória, esgotamento de áreas disponíveis e avanço tecnológico vem mudando esse panorama.
As novas rotas de tratamento não eliminam por completo a necessidade de disposição final, mas reduzem drasticamente o volume destinado a ela e extraem valor de materiais antes considerados sem aproveitamento.
O problema específico dos rejeitos na cadeia de resíduos
Os rejeitos são, por definição, aquilo que sobra após esgotadas as possibilidades de reciclagem e compostagem. Incluem materiais contaminados, compósitos de difícil separação e itens sem mercado de reciclagem estabelecido. Mesmo em sistemas avançados de gestão, uma fração significativa dos resíduos termina como rejeito, e é essa parcela que, tradicionalmente, alimenta os aterros e determina a velocidade de seu esgotamento.
Conforme apresenta Marcello José Abbud, tratar os rejeitos de forma mais inteligente é o que permite romper o teto de desempenho dos sistemas de gestão. Por mais eficiente que seja a reciclagem, sempre haverá rejeitos, e a destinação dada a eles define se o município continuará dependente do aterramento ou avançará para um modelo de aproveitamento integral.
Quais tecnologias processam os rejeitos com aproveitamento?
O leque de tecnologias para tratamento de rejeitos cresceu nas últimas décadas. Processos termoquímicos como pirólise e gaseificação convertem materiais em gases combustíveis e subprodutos sólidos. A recuperação energética captura o conteúdo calorífico dos rejeitos para geração de energia. A decomposição termomagnética, que combina temperatura e campo magnético, processa materiais com redução expressiva de volume e geração de subprodutos aproveitáveis.
Na avaliação de Marcello José Abbud, cada tecnologia apresenta um perfil distinto de custo, complexidade operacional e adequação ao tipo de rejeito, o que torna inviável apontar uma solução universal. A definição da rota mais apropriada exige caracterização precisa dos rejeitos locais e análise das condições técnicas e econômicas de cada município ou consórcio.

Marcello José Abbud
O aterro deixa de ser destino e vira complemento
A consolidação das tecnologias de tratamento de rejeitos redefine o papel do aterro sanitário. Em vez de destino principal, ele assume função de complemento residual, recebendo apenas a fração mínima que sobra após o processamento. Essa inversão prolonga drasticamente a vida útil das instalações existentes e adia ou elimina a necessidade de abertura de novas áreas, que enfrentam crescente resistência social e ambiental.
Sob essa perspectiva, Marcello José Abbud examina como a redução do volume aterrado altera toda a equação de planejamento territorial e ambiental dos municípios. Aterros que receberiam o esgotamento em poucos anos passam a operar por períodos muito mais longos quando precedidos por tratamento eficiente dos rejeitos, transformando um problema iminente em situação administrável.
Os desafios para a difusão das novas tecnologias no Brasil
A adoção das tecnologias de tratamento de rejeitos no Brasil esbarra em obstáculos que vão além da disponibilidade técnica. O investimento inicial elevado, a necessidade de escala para viabilidade econômica, a maturação do arcabouço regulatório e a formação de equipes técnicas capacitadas figuram entre as principais barreiras. Tecnologias emergentes enfrentam ainda a cautela natural de gestores diante de soluções sem amplo histórico de operação no país.
Diante desse panorama, Marcello José Abbud reforça que a superação dessas barreiras depende de unidades de referência que demonstrem desempenho em condições brasileiras, de modelos de financiamento adequados e de arranjos regionalizados que garantam a escala necessária. O Brasil reúne as condições de demanda para liderar a adoção dessas soluções, restando estruturar o ambiente que permita sua difusão em larga escala.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez





