Tecnologia

Embrapa avança no desenvolvimento de carne cultivada em laboratório no Brasil

Pesquisa reúne unidades da estatal para criar filés de frango e alimentos impressos à base vegetal

O Brasil vem ganhando protagonismo em uma das frentes mais discutidas da inovação alimentar mundial: a carne cultivada em laboratório. A Embrapa, empresa pública de pesquisa agropecuária, tem avançado em um projeto que reúne duas de suas unidades para desenvolver essa tecnologia no país, com prazos concretos já definidos para os próximos anos.

Segundo o biólogo Luciano Paulino da Silva, envolvido na pesquisa, o protótipo deve ser finalizado em 2027, e até meados do ano que vem deverá estar na vitrine como um ativo tecnológico da Embrapa. A instituição já afirma ter produzido protótipos de filés de peito de frango, além de amostras de alimentos impressos com base vegetal, incluindo versões de salmão, caviar e anéis de lula. Jornal de Brasília

Como funciona a tecnologia por trás da carne cultivada

O projeto reúne a Embrapa Suínos e Aves, com sede em Concórdia, em Santa Catarina, e o Laboratório de Nanotecnologia da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília. De acordo com informações da própria instituição, a pesquisa envolve multiplicação de células retiradas de animais vivos, cultivadas in vitro em meio nutritivo, um processo que não exige o abate do animal para obter o produto final. Portal Tela

Um dos desafios técnicos centrais desse tipo de produção está na estrutura que sustenta o crescimento das células. Estruturas de ancoragem, chamadas de scaffolds, ajudam a organizar o tecido muscular em três dimensões, o que influencia diretamente a textura e as propriedades sensoriais da carne cultivada. Segundo a pesquisadora Feddern, citada em reportagens sobre o tema, o projeto utiliza estruturas tridimensionais de nanocelulose bacteriana inicialmente desenvolvidas na Universidade Federal de Santa Catarina, que apresentam características semelhantes às de cortes de peito de frango já decelularizados, tanto em tamanho quanto em aparência. Mercoagro

Outro caminho explorado pela pesquisa é o uso de proteínas vegetais para criar biomateriais onde as próprias células possam aderir e se multiplicar, uma alternativa que combina tecnologia celular com insumos de origem vegetal. Essa combinação de abordagens mostra que a carne cultivada não depende de uma única linha de pesquisa, mas de um conjunto de técnicas que se complementam ao longo do processo de desenvolvimento.

Por que o frango foi escolhido como ponto de partida

A escolha do frango como proteína inicial de estudo não foi aleatória. De acordo com pesquisadores envolvidos no projeto, a carne de frango foi selecionada por ser uma das proteínas mais versáteis, consumida em todo o território nacional, além de um dos alimentos mais completos nutricionalmente. O acesso ao banco genético de aves mantido pela própria Embrapa também facilitou o início dos estudos nessa linha específica. Mercoagro

O contexto do setor ajuda a explicar por que esse tipo de pesquisa ganhou força nos últimos anos. A indústria de proteína animal como um todo vem investindo em inovação para conciliar demanda de consumo com pressão crescente por sustentabilidade, já que a carne cultivada surge como uma alternativa capaz de reduzir emissões de gases de efeito estufa, diminuir o uso de água e solo, além de eliminar a necessidade de abate. Iniciativas como essa se conectam a um movimento mundial mais amplo de busca por proteínas alternativas, que inclui tanto produtos de origem vegetal quanto tecnologias de cultivo celular.

O avanço da Embrapa nessa área coloca o Brasil em uma posição relevante nesse mapa tecnológico global, especialmente por se tratar de uma instituição pública com histórico consolidado em pesquisa agropecuária. Se os prazos anunciados forem cumpridos, o país pode se tornar um dos primeiros da América Latina a apresentar um protótipo nacional de carne cultivada, o que tende a abrir caminho para debates regulatórios e discussões sobre a viabilidade comercial desse tipo de produto no mercado brasileiro nos próximos anos.

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