
Richard Lucas da Silva Miranda, empreendedor do setor de games e fundador da LT Studios, comenta que o mercado global de games ultrapassou a marca de 200 bilhões de dólares em faturamento anual, superando a indústria cinematográfica e rivaliza com os maiores setores de entretenimento do planeta. Apesar desse volume expressivo, menos de 2% dos pitches apresentados por estúdios independentes chegam a receber investimento formal. Essa disparidade revela uma verdade que poucos fundadores de estúdios compreendem antes de sentar na mesa com um investidor: o dinheiro existe, mas o acesso a ele exige muito mais do que um bom jogo.
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O que os investidores avaliam antes mesmo de ver o jogo?
A primeira análise de qualquer investidor experiente no setor de games começa pelas pessoas envolvidas no projeto, não pelo produto em si. Segundo Richard Lucas da Silva Miranda, essa lógica, que pode parecer contraintuitiva para desenvolvedores acostumados a colocar o jogo no centro de tudo, reflete uma realidade prática do mercado: jogos mudam, pivotar é inevitável e o produto que chega ao lançamento raramente é idêntico ao que foi apresentado no pitch. O que permanece constante ao longo de todo o processo é o time. Por isso, os investidores avaliam com atenção se os fundadores têm histórico de execução, capacidade de aprender com erros e complementaridade de habilidades entre si.
Um time composto exclusivamente por programadores ou exclusivamente por artistas é percebido como um risco estrutural, independentemente do talento individual de cada membro. Investidores buscam equipes que combinem competência técnica com visão de negócio, capacidade de comunicação com o mercado e habilidade para tomar decisões sob pressão. A ausência de qualquer um desses elementos não elimina necessariamente a possibilidade de investimento, mas exige que o fundador seja capaz de reconhecer a lacuna e apresentar um plano concreto para preenchê-la.
Richard Lucas da Silva Miranda alude que outro fator frequentemente subestimado nessa fase inicial é a capacidade do fundador de aceitar feedback externo sobre o próprio produto. Durante o processo de avaliação, investidores frequentemente testam como o desenvolvedor reage a questionamentos sobre decisões de design, posicionamento de mercado ou viabilidade financeira. Fundadores que demonstram rigidez defensiva em relação ao próprio projeto comunicam, de forma involuntária, que vão ter dificuldade para se adaptar às demandas reais do mercado. E no universo dos games, onde tendências mudam em ciclos cada vez mais curtos, a capacidade de adaptação é tão valiosa quanto qualquer habilidade técnica.

Richard Lucas Da Silva Miranda
Quais critérios de produto e mercado definem se o investimento avança?
Com o time avaliado positivamente, o segundo bloco de análise se concentra no produto e no mercado ao qual ele se destina. Aqui, a pergunta central que o investidor precisa ter respondida com clareza é a seguinte: quem vai comprar esse jogo, por que vai preferi-lo ao que já existe e qual é o tamanho desse grupo de forma mensurável. Respostas genéricas como “todos os jogadores vão querer jogar” são tratadas como sinal imediato de despreparo. O que se espera é um entendimento preciso do público-alvo, do gênero em que o jogo se insere, do nível de saturação desse gênero e do diferencial que justifica a existência do produto naquele espaço específico.
Como destaca Richard Lucas da Silva Miranda, a validação de mercado prévia ao investimento é um elemento cada vez mais valorizado no processo de due diligence de fundos e publishers que atuam como investidores. Uma wishlist expressiva na Steam, a presença de uma demo jogável com métricas de retenção documentadas, uma comunidade ativa em plataformas como Discord ou Reddit e cobertura espontânea de criadores de conteúdo do nicho são evidências concretas de que existe demanda real pelo produto. Nenhum desses indicadores precisa atingir números massivos para ser relevante: o que importa é demonstrar que o interesse existe além do círculo imediato da equipe de desenvolvimento.
O que diferencia um pitch que fecha de um que acumula rejeições?
Richard Lucas da Silva Miranda reflete que o elemento mais diferenciador entre pitches que avançam e os que são descartados rapidamente é a capacidade do fundador de articular uma tese de investimento coerente. Não se trata de um exercício retórico: trata-se de demonstrar que o projeto existe num contexto de mercado bem compreendido, que o time tem as condições necessárias para executá-lo e que há um caminho realista de retorno para o capital investido. Investidores de games não compram jogos. Eles compram teses sobre timing, equipe, mercado e execução. E a qualidade dessa tese é o que distingue um pitch memorável de mais um deck esquecido na caixa de entrada.
O plano financeiro é outro componente que frequentemente define o desfecho de uma conversa com investidores. Não se espera que fundadores de estúdios independentes sejam especialistas em finanças corporativas, mas espera-se que tenham clareza sobre quanto capital precisam, em quais fases vão utilizá-lo, quais são as premissas por trás das projeções de receita e qual é o ponto de equilíbrio do projeto. Planos que apresentam projeções sem base de cálculo explicada, orçamentos sem margem para imprevistos ou escopos que claramente excedem o capital solicitado comunicam imaturidade executiva que o investidor interpretará como risco elevado.
Por fim, as red flags que encerram conversas de investimento antes do previsto tendem a ser mais comportamentais do que técnicas, pontua Richard Lucas da Silva Miranda. Um fundador que compara seu jogo indie a franquias AAA consolidadas como referência de mercado endereçável, um time que não tem nenhum membro com experiência em comercialização ou gestão, ou um projeto em desenvolvimento há mais de três anos sem nenhuma versão pública de validação são sinais que investidores experientes reconhecem como indicadores de risco estrutural. Corrigir esses elementos antes de buscar capital não é apenas estratégia de pitch: é a diferença entre construir um negócio sustentável e depender eternamente de um investimento que nunca vem.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez





