Uma fruta com formato irregular ou um legume com pequenas imperfeições costuma ser deixado de lado antes mesmo de chegar à cozinha. É contra esse tipo de escolha que a campanha “Faz a Xepa” pretende chamar atenção no Brasil. A iniciativa integra o programa Brasil Sem Desperdício, desenvolvido em parceria pelo WWF-Brasil e pelo Waste & Resources Action Programme (WRAP), e propõe uma nova percepção sobre alimentos que acabam descartados por razões estéticas, logísticas ou operacionais.
Divulgada em 3 de outubro de 2026, a campanha terá ações ao longo do mês de outubro, período que inclui o Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro. De acordo com a Agência Brasil, a mobilização contará com a participação da atriz Laila Zaid e da chef Bel Coelho em feiras e restaurantes populares.
O que a campanha chama de “xepa”
O nome da iniciativa recupera o sentido tradicional de “xepa”, associado às sobras comercializadas no fim das feiras. A proposta, porém, amplia o conceito para mostrar que produtos fora do padrão visual esperado por consumidores e estabelecimentos podem continuar próprios para o consumo. Em vez de serem automaticamente tratados como rejeitos, esses alimentos podem ser escolhidos, preparados e transformados em ingredientes.
A aparência, portanto, não é apresentada como sinônimo de qualidade ou segurança. Frutas, legumes e outros itens podem ter formatos, tamanhos e características visuais diferentes daqueles normalmente priorizados nas bancas e prateleiras. A campanha busca estimular uma mudança de comportamento que começa na compra, mas também envolve a comercialização, o preparo e o consumo dos alimentos.
Descarte acontece em diferentes etapas
O desperdício não se restringe ao momento em que uma família decide jogar comida fora. Ele pode ocorrer ao longo de toda a cadeia, desde a produção até a comercialização e o consumo doméstico. Problemas ligados ao padrão estético, à logística e às operações de estabelecimentos ajudam a explicar por que alimentos ainda aproveitáveis deixam de ser vendidos ou utilizados.
Esse percurso torna o tema relevante para públicos diversos. Produtores rurais, feirantes, mercados, restaurantes, empresas do setor alimentício e consumidores participam, em diferentes níveis, das decisões que determinam o destino dos produtos. Ao incluir esses atores no debate, a “Faz a Xepa” procura apresentar o aproveitamento como uma responsabilidade compartilhada, e não apenas como uma tarefa doméstica.
Segundo as informações divulgadas pela Agência Brasil, aproximadamente 30% dos alimentos produzidos no Brasil são desperdiçados. O dado ganha dimensão social em um país onde cerca de 55 milhões de pessoas vivem algum nível de insegurança alimentar, conforme números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados na reportagem. A combinação entre descarte e dificuldade de acesso à comida reforça a importância de discutir como os alimentos são selecionados e utilizados.
Como o consumidor pode participar
No cotidiano, a mudança proposta passa por observar o alimento para além da aparência. Na feira ou no mercado, isso significa considerar produtos com formatos irregulares quando estiverem próprios para o consumo, evitando que o padrão visual seja o único critério de escolha. Em casa, o planejamento das compras e o uso integral ou criativo dos ingredientes podem ajudar a reduzir sobras.
O reaproveitamento também pode envolver partes que muitas vezes são ignoradas, desde que estejam adequadas ao consumo e sejam higienizadas e preparadas corretamente. Cascas, talos, folhas e alimentos maduros podem ser incorporados a diferentes preparos, enquanto frutas e hortaliças visualmente fora do padrão podem servir de base para refeições, acompanhamentos e outros ingredientes. A campanha não propõe uma receita específica, mas uma revisão dos hábitos que antecedem o preparo.
Para restaurantes, feiras e mercados, o desafio inclui rever critérios de seleção, exposição e comercialização. Ações como valorizar produtos de aparência diversa e encontrar usos para itens que perderiam valor comercial podem contribuir para que menos alimentos sejam descartados antes de chegar ao consumidor. A iniciativa também coloca em evidência a necessidade de aproximar eficiência operacional e responsabilidade no uso dos recursos.
Uma mudança com efeitos além da cozinha
Ao tratar do aproveitamento de alimentos, a campanha relaciona escolhas de consumo a impactos sociais, econômicos e ambientais. Cada produto descartado representa também o desperdício dos recursos envolvidos em sua produção, transporte, comercialização e preparo. Por isso, reduzir perdas não é apenas uma questão de economizar na compra: é também repensar o funcionamento da cadeia de alimentos.
A mobilização prevista para outubro aproveita a proximidade do Dia Mundial da Alimentação para levar essa discussão a espaços de circulação cotidiana, como feiras e restaurantes populares. A expectativa é que o conceito de “xepa” ajude a tornar visível uma parte do desperdício que costuma passar despercebida e incentive decisões mais conscientes sobre o que comprar, vender, preparar e consumir.
Com foco na mudança de hábitos, a “Faz a Xepa” apresenta o combate ao descarte como uma prática que pode envolver toda a sociedade. A mensagem central é que um alimento não precisa ter aparência perfeita para ser aproveitado. Ao deslocar o olhar do padrão visual para a possibilidade de uso, consumidores e estabelecimentos passam a participar de uma escolha com reflexos na alimentação e na sustentabilidade.





